
Quem vive da terra no oeste paulista sempre esteve acostumado a lidar com a chuva fora de hora, a seca ou o preço do óleo diesel. Hoje, porém, o maior obstáculo para tirar o alimento da roça é encontrar quem queira colocar a mão na massa.
A realidade nos sítios de Caiabu e Dracena reflete um fenômeno nacional. Segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a falta de trabalhadores já preocupa mais os produtores rurais do que o clima, os preços e os custos de produção. O estudo mostra que 94,8% dos produtores têm dificuldades para contratar e 44,5% apontam a escassez de pessoal como o principal desafio do setor.
Em Dracena, o produtor rural Márcio Dalarme, que cultiva acerola, maracujá e manga, sente esse gargalo todos os dias na pele. “A minha pior dificuldade hoje é a mão de obra, que está escassa. Como é tudo coleta manual e precisa colher uma por uma, então isso é o que mais sofre. E depois vem também o tempo, chuva nas horas erradas, ventania, chuva forte, granizo. Mas o negócio mesmo é a mão de obra que está escassa”, relata.
A poucos quilômetros dali, em Caiabu, o produtor de batata-doce Sadao Suyama enfrenta o mesmo drama. Com cerca de 15 trabalhadores registrados no modelo de contrato intermitente, ele avalia como nota 8 ou 9, em uma escala de 0 a 10, a dificuldade de achar gente para a colheita. “Tem que colocar gente de confiança e de qualidade também, que aguenta o serviço. Isso aí hoje está difícil”, afirma Suyama.
Envelhecimento no campo e afastamento dos jovens
Nas duas propriedades, a falta de braços esbarra em um problema comum: o envelhecimento de quem trabalha na terra e o desinteresse dos mais novos. Segundo Suyama, a lida pesada hoje é sustentada por quem começou há quatro décadas. “Antigamente falavam que o pessoal queria gente nova para trabalhar, mas hoje os novos não querem trabalhar. A gente já está procurando os mais velhos, porque os mais velhos que já começaram a trabalhar nos anos 80, e já estão aí com 50 anos, são os que estão trabalhando. Hoje, se você vier aqui na roça, quem está trabalhando são pessoas de 40 anos, tem dois jovens, mas é muito difícil”, conta o produtor de Caiabu.
Na fruticultura de Dracena, o cenário se repete sem renovação na equipe. “Aqui hoje eu tenho de 5 a 15 pessoas na colheita e todos são acima dos 50 anos. Não tem nenhum jovem, porque o jovem eu acredito que não está tão interessado em roça e a gente depende muito dos mais velhos, no caso de 50 a mais”, completa Márcio Dalarme.
Os dados da CNA ajudam a explicar por que a juventude se afastou do campo. Entre 2012 e 2025, o número de trabalhadores rurais com ensino médio cresceu 114%, e com ensino superior subiu 155%, impulsionando a migração para o setor de serviços nas cidades. Isso ocorre mesmo com a agropecuária aumentando os salários em 35,2% entre 2022 e 2025, acima da média de 24,8% do restante da economia.
Corrida contra o tempo e busca por alternativas
Enquanto os jovens migram para o meio urbano, quem produz precisa correr contra o relógio. Na lavoura de Márcio Dalarme, o trabalho não para quando a fruta sai do pé. “Ele é 100% manual, porque é desde a colheita, e depois ela é lavada, depois ela é congelada, depois é ensacada para depois ser transportada. Todo esse processo precisa da mão de obra, então isso ocorre em cinco dias para poder trabalhar o que colheu, então a mão de obra é essencial para isso”, explica o fruticultor.
Já na batata-doce em Caiabu, a saída encontrada por Sadao Suyama para não deixar a produção parar tem sido recorrer a trabalhadores temporários vindos da Bahia e de Pernambuco, apesar da alta rotatividade. “O pessoal que está trabalhando são todos que vêm lá do Nortão do Brasil. Fica três meses aqui, quando começa a ficar bom, aí vai embora”, diz.
A falta de pessoal no campo já provoca atrasos nas operações para 48,7% dos agricultores brasileiros, suspensão de planos de expansão para 48% e aumento nos custos para 43,9%, segundo a CNA. Para contornar o problema, 88,8% dos produtores no país buscam alternativas, como investir em mecanização (26%) ou mudar para atividades que exijam menos trabalho braçal (27,9%). Enquanto as máquinas não substituem o cuidado manual na acerola de Dracena ou na batata-doce de Caiabu, a produção no oeste paulista segue dependendo da força dos veteranos de 50 anos para continuar saindo da terra.