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Calor intenso reduz desempenho do gado e exige mais cuidados na pecuária do oeste paulista

Em períodos de calor intenso, a redução do consumo de alimento pode comprometer o ganho de peso dos bovinos e prolongar o tempo necessário para a comercialização. – Foto: Júlia Fatinansi

O calor intenso registrado em diferentes períodos do ano na região de Presidente Prudente pode representar um desafio não apenas para a população, mas também para os animais. Quando expostos a temperaturas elevadas, os bovinos mudam o comportamento, reduzem o consumo de alimento e direcionam mais energia para tentar manter a temperatura corporal.

O fenômeno é conhecido como estresse térmico e ocorre quando o animal não consegue dissipar o calor produzido pelo próprio organismo e aquele recebido do ambiente de maneira eficiente. Segundo o professor universitário e zootecnista Leonardo Henrique Zanetti, mestre e doutor em produção animal, o ambiente é um dos três pilares que influenciam diretamente a produção, ao lado da genética e da nutrição.

“Mesmo que o animal tenha boa genética e receba uma alimentação adequada, condições ambientais desfavoráveis, como o estresse térmico, podem comprometer seu desempenho”, explica.

Calor muda o comportamento dos animais

O primeiro impacto das altas temperaturas pode ser percebido no comportamento do rebanho. Os bovinos passam a procurar áreas de sombra, permanecem mais próximos dos bebedouros, reduzem a movimentação e concentram o pastejo nos períodos mais frescos do dia.

O pecuarista e empresário do agronegócio Felipe Maurício Mourão de Araújo Montenegro, que trabalha com aproximadamente 110 animais entre criação, recria e terminação, observa essas mudanças na rotina da propriedade.

Segundo ele, nos dias de calor mais intenso, os animais procuram sombra, ficam próximos da água e tendem a concentrar a alimentação no início da manhã e no final da tarde.

A resposta do organismo também é fisiológica. O médico veterinário e professor universitário Felipe Rydygier de Ruediger explica que o animal passa a aumentar a frequência respiratória, consumir mais água e buscar maneiras de perder calor.

“Ele vai reduzir o consumo de alimento e também gastar mais energia para dissipar o calor corporal e tentar manter a temperatura dentro dos limites normais”, explica.

Entre os sinais que podem indicar estresse térmico estão respiração acelerada, ofegação, salivação excessiva, aumento da ingestão de água, redução do pastejo e busca constante por sombra. Em situações mais graves, o animal pode ficar apático, apresentar dificuldade para respirar, deitar e não conseguir mais se levantar.

Outros fatores de risco

Não existe uma temperatura única que determine quando um bovino estará em situação de estresse térmico. A resposta depende de fatores como raça, idade, condição fisiológica, nível de produção e características individuais.

As condições ambientais também precisam ser analisadas em conjunto. Temperatura, umidade relativa do ar, radiação solar e velocidade do vento influenciam diretamente a capacidade do animal de perder calor.

De acordo com Rydygier, temperaturas acima de 25°C já podem provocar algum grau de desconforto em bovinos mais sensíveis, principalmente quando estão associadas a alta umidade e exposição ao sol.

A umidade elevada dificulta a evaporação do suor e reduz a eficiência da perda de calor. Já a ausência de vento prejudica as trocas de calor entre o animal e o ambiente. A exposição direta à radiação solar também aumenta a carga térmica sobre o bovino.

“Quando a gente vai fazer uma avaliação de risco de estresse térmico, tem que levar em consideração a temperatura, a umidade do ar, a insolação e a ventilação também”, afirma o veterinário.

Raça influencia na resistência ao calor

A capacidade de suportar altas temperaturas também varia entre os bovinos. Raças zebuínas, originárias de regiões tropicais e subtropicais, apresentam maior adaptação ao calor quando comparadas às raças taurinas, originárias principalmente de regiões de clima mais frio.

Nelore e Guzerá são exemplos de raças zebuínas. Entre as características que favorecem a adaptação estão a pele mais pigmentada, pelos mais curtos e maior capacidade de dissipação de calor.

Já raças taurinas, como Angus e Hereford, tendem a apresentar maior sensibilidade às altas temperaturas. O professor Leonardo Zanetti ressalta que também existem diferenças individuais e animais cruzados que podem reunir características de adaptação e desempenho produtivo.

Na propriedade de Montenegro, a criação é formada principalmente por Senepol e seus cruzamentos, além de animais comerciais com presença significativa de sangue Nelore.

“Utilizamos os três sistemas de acordo com a categoria e o objetivo de cada lote. Temos animais exclusivamente a pasto, animais em sistema semi-intensivo e também trabalhamos com confinamento, principalmente na fase de terminação”, relata.

Calor reduz consumo e pode atrasar ganho de peso

Uma das principais consequências do estresse térmico é a redução do consumo de alimento. Isso porque a digestão e o metabolismo produzem calor no organismo. Ao ingerir menos matéria seca, o animal reduz a produção interna de calor e facilita a manutenção da temperatura corporal. Ao mesmo tempo, a necessidade de água aumenta significativamente.

Bovinos buscam sombra para reduzir os efeitos do calor e manter o conforto térmico. – Foto: Dáblio Jordani

“A água é fundamental para processos fisiológicos e também para mecanismos de dissipação de calor, como a sudorese e a respiração”, explica Zanetti.

Para a pecuária de corte, a redução do consumo pode ter reflexos diretos no ganho de peso. Montenegro afirma que esse é um dos principais indicadores observados na propriedade.

Em situações prolongadas de estresse térmico, o animal pode consumir menos alimento e gastar mais energia na termorregulação. Com isso, demora mais para atingir o peso de comercialização, aumentando o tempo de permanência na propriedade e, consequentemente, os custos com alimentação e estrutura.

O impacto também pode atingir a produção leiteira. Segundo Rydygier, além da redução na quantidade de leite, o estresse térmico pode alterar componentes como gordura e proteína, afetando a qualidade do produto.

Estresse térmico também afeta reprodução

Os efeitos das altas temperaturas não ficam restritos ao crescimento e à produção. O sistema reprodutivo também pode ser prejudicado.

O estresse térmico pode reduzir a fertilidade e a taxa de concepção do rebanho, além de aumentar a ocorrência de perdas embrionárias. Dessa forma, as fêmeas podem apresentar maior dificuldade para emprenhar, comprometendo os índices reprodutivos e produtivos da propriedade.

O sistema imunológico também pode ser afetado. Segundo Rydygier, o estresse térmico pode deixar o animal mais apto a doenças, além de provocar desidratação e alterações metabólicas.

Em condições extremas e prolongadas, quando o animal não consegue mais controlar a própria temperatura corporal, o quadro pode evoluir para hipertermia e até levar à morte.

O risco aumenta principalmente quando o calor intenso está associado à elevada umidade, forte radiação solar e baixa ventilação.

Especialistas alertam: água, sombra e manejo fazem diferença

Para reduzir os efeitos do calor sobre o rebanho, os especialistas recomendam medidas que diminuam a carga térmica e facilitem a perda de calor pelos animais.

A primeira prioridade é garantir água limpa, fresca, de qualidade e em quantidade suficiente. Também é necessário oferecer acesso à sombra natural ou artificial e manter condições adequadas de ventilação.

Os manejos, transportes e movimentações desnecessárias devem ser evitados nos horários mais quentes. A alimentação pode ser disponibilizada preferencialmente nos períodos de menor temperatura, quando a carga térmica sobre os animais é reduzida.

O veterinário Felipe Rydygier também recomenda evitar uma taxa de lotação excessiva, que faça com que os animais permaneçam muito próximos uns dos outros, além de monitorar constantemente o comportamento do rebanho.

Em propriedades leiteiras, sistemas com ventiladores e aspersores podem auxiliar na redução da temperatura. Outra alternativa apresentada pelos especialistas é a Integração Pecuária-Floresta (IPF), que utiliza árvores nas áreas de pastejo para proporcionar sombra.

Segundo Rydygier, a presença de árvores pode reduzir em aproximadamente 6°C a temperatura na pastagem em comparação com áreas descobertas. Já para Zanetti, além das medidas imediatas, o planejamento de longo prazo deve considerar a escolha de animais adaptados ao clima, melhorias nas instalações e implantação de áreas de sombra.

Por fim, ao produtor que enfrenta um período de calor extremo, a orientação é clara: reduzir a exposição dos animais ao sol, garantir acesso permanente à água e evitar manejos nos horários de maior temperatura.

“Priorizar o conforto térmico dos animais” é, segundo Rydygier, uma estratégia que beneficia não apenas o bem-estar do rebanho, mas também a produtividade e a rentabilidade da atividade pecuária.

Yasmin Silva
Yasmin Silva
http://campoestesp.com.br

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