
Nem toda riqueza encontrada no gado está na carne, no couro ou em outros produtos tradicionalmente conhecidos. Dentro da vesícula biliar de alguns bovinos pode surgir uma formação sólida, conhecida como cálculo biliar, ou popularmente como “pedra de boi” ou “ouro bovino”. Encontrado em uma pequena fração dos animais abatidos, a grama dessa substância pode chegar a até R$1 mil.
O médico veterinário Marco Aurélio da Cruz, especializado em Anatomia Patológica pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), explica que o cálculo biliar bovino é formado a partir dos constituintes da bile, dentro da vesícula biliar, e é constituído por uma mistura de colesterol, pigmentos biliares, sais de cálcio e uma matriz proteica.

Sua raridade se deve também ao fato de que, mesmo entre os animais que apresentam cálculos, nem todos são adequados para comercialização. “Apenas uma pequena parcela dos animais abatidos contém cálculos e, entre esses casos, poucos são aproveitáveis. Uma quantidade ainda menor apresenta o material com qualidade comercial elevada”, afirma.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o “ouro do boi” é encontrado em aproximadamente 1% a 2% dos bovinos.
Para encontrá-lo, a vesícula é separada juntamente com as vísceras durante a evisceração (remoção dos órgãos abdominais). De acordo com o médico veterinário, nos frigoríficos que aproveitam esse coproduto, a vesícula é examinada e seu conteúdo é drenado ou filtrado.
“Os cálculos aparecem durante esse processamento da bile. Para comercialização, os principais fatores são integridade, cor, homogeneidade, composição, pureza, peso, grau de secagem, ausência de mofo ou contaminação e rastreabilidade”, conclui.
Prudente na rota do cálculo biliar
No país, o alto valor do cálculo biliar bovino já resultou em apreensões durante o transporte no país. Um dos casos ocorreu em Vilhena, em Rondônia, quando um homem de aproximadamente 40 anos, morador de São Paulo, foi detido pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) transportando mais de 3 quilos da “pedra de boi” sem comprovação de recolhimento fiscal.
Segundo informações obtidas pelo Folha Sul Online, a carga tinha como destino Presidente Prudente, capital regional do Estado de São Paulo.
Com a recente abertura do mercado chinês para a mercadoria brasileira, o cálculo biliar bovino, que muitas vezes passaria despercebido durante o abate, ganha cada vez mais espaço como um subproduto de valor dentro da cadeia pecuária.
Espaço no mercado internacional
Conhecido como uma das substâncias mais valorizadas da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), o “ouro”, conhecido como niúhuáng, é utilizado há mais de mil anos na fabricação de medicamentos destinados ao tratamento de emergências médicas, tais como doenças neurológicas e processos inflamatórios. De acordo com a Farmacopéia Chinesa, um compêndio que define padrões de qualidade, pureza, composição e segurança para produtos da MTC, o cálculo bovino faz parte de quase 700 fórmulas medicinais oficiais.
A ampla presença do insumo nessas formulações demonstra a importância adquirida dentro da tradição medicinal chinesa ao longo dos séculos. No entanto, a procura permanece alta devido à dificuldade de substituição por alternativas sintéticas. Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição de destaque na produção mundial, já que, segundo o Governo Federal, o país é o maior produtor de cálculo biliar bovino e responde por aproximadamente 40% da oferta global.
Esse protagonismo ganhou uma nova dimensão em julho de 2026, quando o Brasil e a China assinaram um protocolo sanitário estabelecendo requisitos para a exportação brasileira da mercadoria.
Com isso, frigoríficos e estabelecimentos habilitados poderão ter acesso a um mercado de alto valor. Para a China, a abertura desse mercado amplia a possibilidade de acesso ao insumo considerado importante pela indústria farmacêutica tradicional.
O que para muitos poderia ser apenas uma pequena pedra retirada durante o abate, para um mercado específico representa uma mercadoria de alto valor. Raro e difícil de encontrar, o cálculo biliar bovino mostra que, na pecuária, o valor de um animal pode estar também em partes que normalmente passariam despercebidas.