• Onde o agro vira notícia
Voltar

Leite A2-A2 x sem lactose: entenda as diferenças na produção e no consumo

Criação de gado leiteiro exige cuidados com a alimentação, a genética e o manejo dos animais, fatores que influenciam a produção e a qualidade do leite / Foto: Dablio Jordani

Uma novidade no campo vem chamando a atenção de quem produz e de quem consome leite no oeste paulista. É a produção do chamado leite A2-A2, apelidado no meio rural de “leite do futuro”. O produto promete ser mais leve e fácil de digerir, trazendo uma nova opção para o mercado. No entanto, por ser algo recente, muita gente ainda confunde o leite A2-A2 com o tradicional leite “sem lactose”.

A diferença entre os dois é simples. O leite sem lactose passa por um processo na fábrica para retirar ou quebrar a lactose, que é o açúcar natural do leite. Já o leite A2-A2 é um produto natural que vem direto da vaca. A diferença está na genética do animal, que produz um leite com um tipo de proteína mais amigável para o estômago.

No leite comum que encontramos no mercado, existem dois tipos principais dessa proteína, chamados de A1 e A2. Quando bebemos o leite tradicional, a proteína A1 pode ser mais difícil de digerir para algumas pessoas, causando mal-estar. No leite A2-A2, a vaca produz apenas a proteína A2, facilitando a digestão.

O papel da genética nas fazendas

Para produzir esse leite, o produtor não precisa de uma raça diferente de vaca nem de uma ração especial. O segredo está em selecionar as vacas certas dentro do próprio rebanho.

O zootecnista Marco Factori explica que essas vacas já existem naturalmente nas propriedades, e o trabalho da ciência é justamente identificar e multiplicar esses animais.

“Essa vaca é A2-A2, esse leite A2-A2 não tem essa proteína que o pessoal é sensível no processo de digestão. Então, qual é o papel da genética? Teoricamente, as vacas já existem. O papel da genética é selecionar essas vacas e começar a reproduzi-las para que nós tenhamos uma linhagem de vacas selecionadas que produzam A2-A2”, explica Factori.

O especialista aponta que o desafio agora é organizar o mercado para esse produto chegar com mais facilidade até as prateleiras. “Os principais desafios científicos são selecionar as vacas e continuar a produção leiteira. As vacas já existem, é apenas a seleção, a separação desses animais e a busca por um nicho de mercado específico, vendendo esse leite para determinados laticínios que vão processar o produto e atender essa população”, afirma.

Produção de alta qualidade

Em Monte Castelo, no oeste paulista, o pecuarista Ronaldo Silis investe na criação dessas vacas com genética selecionada. Ele conta que a rotina do sítio e o cuidado com os animais são os mesmos de qualquer outra criação, mas o resultado na baldeação compensa.

“O animal é normal, o trato deles é igual ao das outras vacas, tudo normal. Só que é um animal de FIV, então é um animal com uma genética bem avançada. Com um pouco de trato que você dá, ela corresponde a mais do que as vacas normais. Eu tiro em média, numa novilha de primeira lactação, 30 litros de leite por dia”, ressalta Silis.

A2-A2 substitui o leite sem lactose?

Apesar das vantagens, é importante esclarecer: o leite A2-A2 não é um leite sem lactose.

A lactose continua presente no leite A2-A2. Por isso, quem tem diagnóstico de intolerância à lactose (dificuldade de digerir o açúcar do leite) pode continuar sentindo desconfortos como gases e dor na barriga se tomar o A2-A2. Para esses casos, o leite sem lactose continua sendo a opção mais recomendada.

Por outro lado, o leite A2-A2 é ideal para quem sente que o leite comum “pesa” no estômago, mas não tem intolerância à lactose. Nesse caso, o desconforto costuma ser provocado justamente pela proteína A1, que não existe no leite A2-A2.

“É o leite do futuro, que não dá alergia e quem tem intolerância ou sensibilidade pode tomar o leite desses animais”, comenta o produtor Ronaldo Silis.

Desafios para chegar até a mesa do consumidor

Apesar do interesse do público, o pequeno produtor do oeste paulista ainda enfrenta dificuldades para vender esse leite de forma separada na região.

“As grandes fazendas hoje do Brasil estão indo todas para o A2-A2. Já fui em propriedades como a Grindos, em Descalvado, que tira 70 mil litros de leite por dia tudo A2-A2, só que eles já têm um laticínio próprio e a marca deles. Agora, a gente que é pequeno ainda não consegue encaixar no nosso mercado aqui, porque é difícil vender na nossa região por não ter laticínio que consiga comprar em pequenas quantidades de forma separada”, relata Silis.

Cuidados com os animais e rotina no campo

Para manter as vacas produzindo bem em Monte Castelo, o conforto do animal vem em primeiro lugar. O organismo da vaca trabalha bastante para produzir o leite, por isso qualquer estresse faz a produção cair.

“A vaca tem a rotina dela e essa rotina não pode ser mudada, se mudar já dá um estresse e ela diminui o leite. Tem que ter o mesmo horário das ordenhas, no meu caso, uma às 5h da manhã e a outra às 16h, água limpa, alimentação de boa qualidade com silagem de milho e pastagem adubada em piquete rotacionado com irrigação. No meio do dia, na hora do sol quente, tem que ter sombra para não ter o estresse térmico, que é o vilão da pecuária leiteira”, explica Ronaldo.

Manutenção dos horários de ordenha, alimentação adequada e oferta de sombra estão entre cuidados adotados para preservar o bem-estar dos animais / Foto: Dablio Jordani

Além do clima quente da região, a rotina de tirar leite todos os dias da semana sem folgas e a falta de mão de obra no campo fazem com que os produtores busquem cada vez mais máquinas e tecnologias para ajudar no trabalho diário.

Mesmo com os desafios, quem vive do leite garante que vale a pena investir na qualidade: “dá para ganhar dinheiro e se sustentar com vaca leiteira sim. O leite não enriquece ninguém, mas paga suas contas e mantém o seu padrão de vida tranquilo”, finaliza Ronaldo Silis.

Dáblio Jordani
Dáblio Jordani
http://campoestesp.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *