• Onde o agro vira notícia
Voltar

Genética de ponta e manejo rigoroso impulsionam criação de carneiros reprodutores no oeste paulista

Por muito tempo, a carne de carneiro no Brasil foi associada a animais velhos, com carne dura e gosto muito forte. Hoje, o mercado consumidor exige cortes macios e saborosos, e no centro dessa transformação está o carneiro reprodutor. Nos 56 municípios da região de Presidente Prudente, o rebanho de ovinos, que engloba carneiros, ovelhas e cordeiros, contava com cerca de 27,6 mil cabeças em 2025, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE, com destaque para Taciba (cerca de 2.050 cabeças), Adamantina (cerca de 1.700) e Rosana (aproximadamente 1.500). Para atender a esse mercado, a criação moderna aposta na precisão genética dos machos.

Enquanto uma ovelha produz, em média, de um a dois cordeiros por ano, um único carneiro reprodutor pode ser pai de centenas de filhotes na mesma safra, transmitindo metade das características genéticas do rebanho. Para o zootecnista Cláudio Donizete da Silva Junior, a escolha do animal define o sucesso da propriedade. “Em termos de qualidade dos cordeiros, praticamente o macho é responsável por imprimir toda essa parte produtiva. Então, ganho de peso, rendimento de carcaça, qualidade da carcaça, a maioria desses quesitos vem do macho. Se você escolher um reprodutor ruim, com certeza você vai ter animais ruins, não vai ter desempenho e o custo vai ser elevado”, explica.

Na prática, essa busca por padronização levou o criador Fábio Miranda Mori a mudar o rumo de sua propriedade. Ele iniciou na atividade em 1999 com foco comercial e chegou a ter 1.200 matrizes, mas em 2001 decidiu vender o rebanho de corte para se dedicar exclusivamente à genética da raça Texel. “Entre todas as raças do mundo, é a raça que mais passa a característica paterna para os animais cruzados, ou seja, fêmeas de todas as raças, o Texel imprime muito a sua característica no primeiro cruzamento, no meio-sangue. Isso aí chama a atenção dos clientes quando usam, por essa padronização, que é o que o mercado e a indústria querem, muito parecido em peso e idade”, afirma Mori.

Segundo o zootecnista Cláudio Donizete da Silva Junior, o cruzamento utilizando raças europeias especializadas, como Suffolk, Ile de France e a própria Texel, atende diretamente ao paladar mais exigente do estado de São Paulo. Com a genética voltada para o crescimento rápido, os cordeiros atingem o peso ideal de abate, entre 30 e 35 quilos, com apenas três a cinco meses de vida, garantindo uma carne macia, sem cheiro forte e com uma camada uniforme de gordura. “O cliente busca no meu reprodutor aquilo que ele quer enxergar no cordeiro: o volume de carne desejável, a precocidade, o desenvolvimento rápido para converter esse alimento que ele oferece o mais rápido possível em carne, para obter lucro cada vez mais rápido”, completa o criador Fábio Mori.

Formação de carneiros reprodutores exige nutrição adequada e cuidados para garantir desenvolvimento e eficiência reprodutiva dos animais / Foto: Dablio Jordani

Seleção rigorosa e cuidados da porteira para dentro

Formar um reprodutor de elite, porém, exige um manejo muito diferente da engorda de animais para o abate. De acordo com Fábio Mori, o processo não permite pressa: “fazer reprodutor é diferente de fazer cordeiro, porque você não pode acelerar tanto a produção, dar muito peso artificialmente no cordeiro, que acaba podendo aleijar o animal, dá problema de aprumo e de subdesenvolvimento do aparelho reprodutivo. Então você tem que moldar essa pedra bruta de uma forma diferente, levar esse animal ao natural, com todas as necessidades nutricionais e sanitárias atendidas”, relata.

Essa atenção começa no nascimento e segue até a fase adulta, mantendo a proporção ideal de um carneiro para cada 25 a 30 ovelhas na monta natural. O zootecnista Cláudio Donizete da Silva Junior destaca que o controle de verminoses com testes quinzenais ou mensais, a vacinação contra doenças como linfadenite e clostridioses e o cuidado com os cascos são indispensáveis. “Um animal bem nutrido tem altas possibilidades de fecundar, aumentar a taxa de fertilização. O básico que ele precisa é sempre uma pastagem de boa qualidade e sal mineral. Na época de estação de monta, provavelmente vou ter que suplementar com uma ração, e na seca é um volumoso e concentrado no coxo para esse animal não perder o escore corporal”, orienta o especialista.

Além da nutrição, a avaliação física para o registro do animal puro é rígida.

“Uma coisa básica é a gente verificar se o animal tem bom aprumo, bom casco, não tem defeitos em aparelho reprodutor e se apresenta uma saúde boa”, pontua Cláudio Donizete da Silva Junior. Fábio Mori reforça essa exigência técnica no dia a dia: “Você tem que ser filiado à associação, ter um técnico responsável para selecionar esses animais. Arqueamento de costela, linha de dorso e, no caso dos reprodutores, a cabeça masculina, são características obrigatórias quando você cria um animal puro”.

Entraves logísticos e falta de mão de obra

Apesar da qualidade genética alcançada no oeste paulista, o crescimento da criação comercial enfrenta barreiras estruturais. Após o auge vivido pela região em meados de 2005, que resultou na criação do primeiro frigorífico de ovinos com inspeção federal do estado em Presidente Prudente, hoje fechado, os pequenos produtores sofrem com a distância dos abatedouros ativos.

“A questão de nós estarmos no oeste, quase no fim do estado de São Paulo, e as poucas indústrias estarem no meio do estado, em Botucatu e São Manuel, estamos falando de 350 quilômetros no mínimo. Hoje, quando a indústria compra cargas de cordeiros, a gente está falando de 150 a 200 animais, ou 8 a 10 mil quilos vivos. Isso é muito difícil de um pequeno produtor ter, e quando tem um volume desse, não estão todos os animais prontos na mesma época”, analisa Mori, que hoje mantém sua clientela focada em rebanhos menores e de subsistência.

Somado ao frete e à falta de escala, o setor também esbarra na escassez de trabalhadores dispostos a encarar a rotina que os animais exigem: “nós estamos passando uma fase muito difícil de mão de obra principalmente, não que seja difícil criar, mas as características de produção hoje requerem uma mão de obra sete dias por semana dentro da propriedade rural, e os próprios funcionários não trabalham esses sete dias, então acaba dando muito conflito de produção”, conclui o criador.

Dáblio Jordani
Dáblio Jordani
http://campoestesp.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *