
Conhecida nacionalmente como a capital da acerola, Junqueirópolis tem no cultivo uma importante fonte de renda para agricultores familiares, que encontraram na fruta uma alternativa para diversificar a produção rural. Ao longo das últimas décadas, a atividade contribuiu para a economia local e estimulou o desenvolvimento de técnicas de cultivo adaptadas às condições da região, embora os produtores ainda enfrentem dificuldades para manter a produtividade e garantir a comercialização dos frutos.
Segundo informações da Cooperativa Agrícola de Junqueirópolis, o município reuniu, em 2025, cerca de 62 produtores da fruta e aproximadamente 10 mil plantas. A cultura envolve diferentes etapas de trabalho, desde os cuidados com o solo e a irrigação até a colheita e a destinação dos frutos ao mercado. Além da renda obtida nas propriedades, a atividade movimenta a contratação de trabalhadores rurais e contribui para a circulação de dinheiro no comércio local.
A presença da acerola na história do município também se reflete nas famílias que mantêm o cultivo há gerações. Esse é o caso de Jair Fernando Honório, filho e neto de produtores rurais, que possui uma plantação com pouco mais de 800 pés da fruta. Segundo ele, o cultivo começou na família há quase três décadas, com seu avô, em um período de dificuldades para a cafeicultura, que enfrentava os prejuízos provocados por uma geada.
“Na época, o café deu aquela fracassada devido a geada e ficou difícil para o agricultor familiar continuar produzindo”, relata Jair.
De acordo com o produtor, o incentivo ao plantio da acerola surgiu como uma alternativa para as pequenas propriedades do município, visto que a cultura exigia trabalho manual e permitia a participação de familiares e vizinhos na colheita, o que favoreceu sua adoção entre agricultores que buscavam uma nova fonte de renda. Com o tempo, o cultivo passou a fazer parte da identidade agrícola de Junqueirópolis.
Clima e manejo favorecem o cultivo
A consolidação da acerola na região está diretamente relacionada à combinação entre as condições naturais e o desenvolvimento de técnicas para conduzir as plantações. Segundo o agrônomo Rodrigo Vazquez, fatores como temperatura, disponibilidade de água, características do solo e incidência de luz solar influenciam diretamente o desenvolvimento das plantas. A experiência acumulada pelos produtores ao longo dos anos também contribuiu para o aprimoramento do manejo, especialmente com a ampliação do uso de sistemas de irrigação.
A disponibilidade de água é um dos aspectos que exigem maior atenção durante o cultivo. Embora a acerola necessite de umidade para se desenvolver e formar os frutos, a falta de chuva pode comprometer o crescimento da planta e reduzir a produtividade. Por isso, a irrigação permite complementar o fornecimento de água durante os períodos de estiagem e ajuda a manter condições mais adequadas para a produção. O manejo, porém, precisa considerar as características de cada área, já que o excesso de água no solo também pode prejudicar as raízes e favorecer o surgimento de problemas na lavoura.
Os cuidados começam antes mesmo do plantio, com a escolha da área e a avaliação das condições do solo. Vazquez destaca também a importância da análise química para identificar a acidez e a disponibilidade de nutrientes do solo, informações que orientam a correção e a adubação necessárias. A partir desses resultados, o produtor pode planejar o fornecimento de nutrientes importantes para o desenvolvimento das raízes, a formação da copa e a produção dos frutos. Esse planejamento evita que a lavoura seja implantada sem considerar as necessidades específicas do terreno.
Depois do plantio, o trabalho envolve outras práticas para manter as plantas saudáveis e produtivas. Entre elas estão o controle de plantas daninhas, as podas de formação e manutenção da copa e o acompanhamento frequente das condições da lavoura. O monitoramento de pragas e doenças também é necessário, já que permite identificar alterações nas folhas, flores e frutos antes que os danos se tornem mais graves. Entre os problemas citados pelo agrônomo estão os ataques de pulgões e cochonilhas, além de doenças como a antracnose e a cercosporiose.
O tempo necessário para que a planta comece a produzir também influencia o planejamento do agricultor. Segundo Rodrigo, a acerola pode iniciar a produção comercial a partir do segundo ano, dependendo da variedade cultivada e das condições de manejo. Essa primeira frutificação, no entanto, não significa que a planta já atingiu seu potencial produtivo. Nos anos seguintes, com o desenvolvimento da estrutura vegetativa e a continuidade dos cuidados, a produção tende a aumentar, o que exige do produtor planejamento para acompanhar cada etapa da formação da lavoura.
Colheita exige trabalho manual
Mesmo com os avanços nas técnicas de cultivo, a colheita continua sendo uma das etapas mais trabalhosas da produção de acerola. Como os frutos são retirados manualmente, o volume que pode ser colhido depende diretamente da quantidade de trabalhadores disponíveis. Essa característica exige organização nas propriedades, principalmente durante os períodos de maior produção, quando é necessário recolher os frutos e encaminhá-los à comercialização.
Na propriedade de Jair, a atividade se distribui ao longo de boa parte do ano. Segundo ele, a acerola produz durante aproximadamente oito a nove meses, enquanto o intervalo de menor atividade se concentra no inverno, principalmente entre junho e agosto. Esse ciclo permite que a cultura ofereça oportunidades de renda durante vários meses, mas também exige acompanhamento constante das plantas e disponibilidade de trabalhadores para realizar a colheita no momento adequado.
O agricultor também afirma que as condições climáticas interferem tanto no desenvolvimento dos frutos quanto na organização do trabalho no campo. Ele explica que a acerola precisa de chuva e umidade, mas também depende da incidência de sol, por isso, períodos prolongados de tempo fechado podem prejudicar a resposta das plantas, enquanto temperaturas elevadas podem provocar a queda de flores e danificar frutos que já estão formados. A distribuição das chuvas ao longo do ano também faz diferença, pois grandes volumes de precipitação concentrados em poucos dias, seguidos por períodos extensos de estiagem, dificultam o manejo da lavoura.

Além das condições do tempo, a contratação de trabalhadores é uma preocupação para quem pretende manter ou ampliar a produção. De acordo com Honório, a colheita exige esforço físico e exposição ao sol durante a jornada, fatores que tornam mais difícil encontrar pessoas dispostas a realizar o serviço. O pagamento é feito por produção, conforme a quantidade de baldes de frutas colhidos, e o produtor informa que o valor praticado fica em torno de R$1 a R$1,10 por quilo.
A falta de mão de obra também interfere nas decisões sobre a expansão da lavoura. Jair explica que aumentar o número de plantas não garante, por si só, um crescimento da produção comercializada, já que é necessário ter trabalhadores suficientes para colher os frutos.
Sem essa estrutura, parte da produção pode deixar de ser aproveitada. Para o agricultor, a disponibilidade de mão de obra está diretamente ligada à capacidade de manter a atividade e atender à demanda dos compradores.
Comercialização e renda para as famílias
A produção de acerola representa uma fonte de renda para os agricultores familiares, mas o resultado financeiro depende também das condições de comercialização. Encontrar compradores, negociar preços e garantir o escoamento dos frutos são etapas que influenciam a continuidade da atividade. Jair relata que a dificuldade para vender toda a produção e os valores recebidos pela fruta estão entre os fatores que desestimulam alguns produtores e ajudam a explicar a redução do cultivo no município em comparação com anos anteriores.
No início da trajetória da família, a produção era destinada a cooperativas e à indústria local. Com o passar do tempo, diante das dificuldades de comercialização, Honório decidiu buscar outros mercados para a fruta cultivada na propriedade. Ele estabeleceu contatos com empresas de grandes centros consumidores, incluindo São Paulo e Belo Horizonte, e passou a organizar a venda de forma independente. A mudança permitiu diversificar os canais de comercialização e reduziu a dependência dos compradores locais.
Ao longo de aproximadamente sete anos nesse segmento, Jair também passou a comprar acerola de agricultores próximos, entre amigos e produtores parceiros. Atualmente, segundo ele, cerca de 90% da fruta que comercializa vem dessas propriedades, enquanto o restante corresponde à produção de sua família.
A parceria com outros agricultores permite reunir um volume maior de frutas para atender aos compradores, mas também evidencia a relação entre a comercialização e a capacidade produtiva das propriedades. Para o agricultor, a dificuldade de encontrar trabalhadores limita a possibilidade de ampliar a própria plantação, mesmo quando existe interesse em aumentar o volume vendido. Assim, a compra de frutas de produtores parceiros tornou-se uma alternativa para expandir o negócio sem depender exclusivamente da produção de seus próprios pés de acerola.
Desafios para manter a produção
Apesar da tradição construída ao longo das décadas, a produção de acerola enfrenta dificuldades que afetam o rendimento das plantações. Jair aponta as mudanças nas condições climáticas, a ocorrência de pragas e doenças, a dificuldade de contratação de trabalhadores e os obstáculos para comercializar os frutos como fatores que vêm pressionando a atividade. Segundo ele, a falta de incentivo e de apoio para custear insumos e garantir acompanhamento técnico também dificulta a manutenção das pequenas propriedades.
Uma das preocupações do produtor é a redução da quantidade de frutas colhidas por planta. Ao comparar a produção atual com o período em que seu avô começou a cultivar acerola, ele estima que uma planta adulta, que antes podia produzir mais de 200 quilos por safra, hoje apresenta uma média próxima de 110 quilos. Ele relaciona essa diferença a um conjunto de fatores, incluindo as variações climáticas, o empobrecimento do solo e o aumento de problemas com pragas e doenças. Os números são estimativas do produtor a partir de sua experiência com a cultura.

As condições do tempo também representam um desafio porque afetam diferentes etapas do desenvolvimento da acerola. A irregularidade das chuvas pode alternar períodos de excesso de água com intervalos prolongados de estiagem, enquanto as temperaturas elevadas podem prejudicar as flores e os frutos. Nesse cenário, o manejo da irrigação, a manutenção da fertilidade do solo e o acompanhamento da saúde das plantas se tornam ainda mais relevantes para reduzir perdas e preservar a produtividade.
Para o agrônomo Rodrigo Vazquez, o monitoramento constante da lavoura é fundamental para identificar problemas e orientar as medidas de controle. A análise do solo, a adubação adequada, a irrigação e os cuidados com a estrutura das plantas precisam fazer parte do planejamento do produtor. Além disso, a qualidade comercial dos frutos deve ser considerada durante o cultivo, já que a aparência e as características da acerola influenciam sua aceitação pelos compradores.
Concorrência
A concorrência com outras regiões produtoras também aumenta a pressão sobre a comercialização. Jair observa que a acerola passou a ser cultivada em outros estados, incluindo o Paraná, ampliando a disputa por espaço no mercado. Para os agricultores de Junqueirópolis, encontrar compradores e obter preços que compensem os custos de produção é essencial para manter a atividade, sobretudo diante da necessidade de contratar trabalhadores para uma colheita predominantemente manual.
Mesmo com as dificuldades, a acerola continua presente na história agrícola de Junqueirópolis e na rotina de famílias que encontraram na fruta uma alternativa à produção tradicional de outras culturas. A experiência dos agricultores, o conhecimento técnico e a busca por novos canais de comercialização são parte das estratégias para manter o cultivo. No entanto, a permanência da atividade depende de condições que permitam aos produtores enfrentar os desafios da produção e garantir renda com a venda dos frutos. Mais do que preservar uma tradição, manter o cultivo da acerola significa assegurar a continuidade de uma atividade que contribui para a economia local e sustenta o trabalho de famílias rurais.
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