
A presença feminina no agronegócio vai além do trabalho dentro das propriedades rurais. Mulheres também participam da produção, da pesquisa, da formação de profissionais e da organização de iniciativas que contribuem para o desenvolvimento do setor. No oeste paulista, duas trajetórias mostram como a atuação feminina tem se construído ao longo dos anos, entre conquistas, dificuldades e diferentes formas de enxergar os desafios da profissão.
Celebrado em 15 de outubro, o Dia Internacional da Mulher Rural chama a atenção para a participação das mulheres na agricultura, na produção de alimentos e no desenvolvimento das comunidades rurais. A data também abre espaço para discutir as condições de trabalho, o reconhecimento profissional e as oportunidades para quem escolhe construir uma carreira ligada ao campo.
História que começou na infância
Cláudia Prandini cresceu em uma fazenda de café. Filha e neta de cafeicultores, ela guarda lembranças da infância no campo, inclusive de um período difícil para a cafeicultura: a chamada Geada Negra, que marcou sua memória pelos efeitos sobre os pés de café e pela preocupação vivida pelo pai.
“Eu nasci no campo e cresci no campo. Passei minha infância no campo, que foi a melhor infância da face da terra, ao meu ver”, relembra.

Posteriormente, a família se mudou para Londrina, no Paraná, em busca de acesso à educação. Mesmo longe da fazenda, a ligação familiar com o agronegócio permaneceu. A produção de café deu lugar à cana-de-açúcar, cultura que continua presente na propriedade da família.
Porém, Cláudia precisou seguir outro caminho profissional inicialmente. Formada em Marketing e Propaganda, trabalhou com vendas e com o mercado imobiliário. Apesar de sempre ter desejado atuar diretamente no agronegócio, ela conta que o pai não apoiava a ideia de que as filhas seguissem essa profissão.
Anos depois, ao se mudar para Presidente Prudente, Cláudia encontrou uma oportunidade para trabalhar na fazenda do marido, Pedro, onde a família já atuava no setor. Em vez de seguir uma cultura que exigisse cuidados diários intensivos, como o cultivo de alface, decidiu apostar na batata-doce, aproveitando áreas da propriedade que não permitiam a mecanização utilizada em outras lavouras. A escolha marcou o início de uma trajetória de aproximadamente 12 a 13 anos na produção da raiz.
Da lavoura à organização da Batatec
O início no cultivo da batata-doce exigiu que Cláudia buscasse conhecimento técnico e aprendesse sobre as etapas da produção. Ela procurou orientação de profissionais da área, conheceu fornecedores de ramas e passou a acompanhar de perto o desenvolvimento das lavouras.
A primeira experiência, segundo ela, teve baixa produtividade. O resultado a levou a estudar mais sobre a cultura e a buscar alternativas para melhorar a qualidade da produção.
Ao longo dos anos, Cláudia ampliou as áreas cultivadas e passou a enfrentar outros desafios, como a queda de produtividade, as condições climáticas, o aumento dos custos de mão de obra e as dificuldades de comercialização.
Ela relata que, em determinado período, o custo com trabalhadores passou de cerca de 10% para 50% de sua planilha de produção. Também enfrentou safras prejudicadas pelo calor e por problemas de qualidade, que dificultaram a venda da batata-doce e contribuíram para o endividamento.
Depois de anos tentando manter a atividade, decidiu interromper o cultivo. Atualmente, a propriedade da família trabalha com milho, destinado à venda para confinamentos.

A experiência na produção abriu portas para outra frente de atuação: a organização de iniciativas voltadas aos produtores rurais.
Cláudia participou das articulações que deram origem à Batatec, feira ligada à cadeia produtiva da batata-doce. Ao lado de outros envolvidos, ajudou a estruturar a associação necessária para viabilizar o evento e participou das decisões sobre sua organização.
Ela também esteve à frente de etapas do planejamento, da montagem de equipes e da busca por soluções para os desafios de estrutura e realização da feira. Em uma das iniciativas, organizou a Batatec Week, com atividades gastronômicas que buscavam aproximar restaurantes e consumidores da batata-doce produzida na região.
Sua presença nesse espaço foi acompanhada de conflitos e dificuldades de reconhecimento dentro de um ambiente predominantemente masculino.
O espaço da mulher no agro
Ao recordar o período em que trabalhava diretamente na lavoura, Cláudia afirma que enfrentou resistência para ter suas orientações consideradas pelos funcionários. Segundo ela, a confiança em seu conhecimento demorou a ser construída, mesmo quando suas decisões estavam relacionadas à própria produção.
Em uma das situações relatadas, ela orientou a aplicação de um produto para combater uma infestação de lagartas em uma área de cinco alqueires de batata-doce. A recomendação não foi seguida, e a lavoura acabou prejudicada. Para Cláudia, o episódio evidenciou a dificuldade de ter sua autoridade reconhecida por ser mulher.
“Para a mulher ser respeitada, tem que acontecer alguma coisa horrorosa”, afirma.
A produtora também relata ter sido a única mulher em espaços de decisão relacionados à organização da feira. Conforme seu depoimento, à medida que o evento cresceu, ela passou a enfrentar questionamentos sobre sua atuação e decidiu se afastar.
Segundo Cláudia, a presença feminina no agronegócio aumentou, mas isso não significa que as profissionais tenham conquistado reconhecimento em condições iguais. Para ela, a competência das mulheres ainda precisa ser demonstrada repetidamente para que suas decisões sejam levadas a sério.
Para quem deseja seguir nesse setor, ela deixa um conselho direto: não desistir, impor limites e defender o próprio valor profissional.
“Tem que se impor. E tem que mostrar o valor que tem. Não pode ter medo”, aconselha.
Quatro décadas de profissão
A experiência de Sônia Marangoni apresenta outro percurso. Com 45 anos de formação, a engenheira agrônoma construiu sua carreira em contato com produtores rurais, na pesquisa e na educação.
Ela conta que, quando cursava a graduação, as mulheres eram minoria: em uma turma de 60 estudantes, apenas 11 eram mulheres. A presença masculina predominava desde a formação, realidade que continuou a encontrar no exercício profissional.
Apesar disso, a agrônoma afirma que sempre procurou manter uma atuação próxima dos produtores, baseada no diálogo e na confiança. De acordo com as experiências dela, demonstrar competência e construir relações profissionais foram caminhos importantes para superar barreiras.

“Você vai mostrando o seu trabalho, a competência, você vai ganhando a confiança do produtor”, explica.
Ao longo da carreira, investiu na formação acadêmica, concluindo mestrado e doutorado. Ela conta que conciliar os estudos com a vida familiar exigiu esforço, mas a formação ampliou suas possibilidades profissionais e permitiu conhecer experiências de pesquisa fora do Brasil.
A atuação na educação também fez parte de sua trajetória. Como professora de uma escola agrícola, acompanhou a formação de novos profissionais e destaca a satisfação de ver o conhecimento compartilhado durante as aulas continuar presente no trabalho de outras pessoas.
Pesquisa e agricultura familiar caminham juntas
Sônia também destaca a importância da agricultura familiar para o desenvolvimento do agronegócio regional. Segundo ela, a região de Presidente Prudente passou por diferentes ciclos produtivos, com culturas como algodão e amendoim, além da pecuária.
Nesse cenário, a batata-doce ganhou espaço e se tornou uma atividade importante para muitas famílias produtoras. Sônia relaciona a expansão da cultura ao desenvolvimento de pesquisas e tecnologias, que contribuíram para ampliar a produtividade e impulsionaram a criação e o aprimoramento de máquinas utilizadas no cultivo.
A experiência também reforça que o agronegócio não se resume às grandes propriedades ou às operações mecanizadas. A agricultura familiar participa da produção regional e depende do acesso à tecnologia, da qualificação e de condições que permitam a continuidade da atividade.
Os desafios permanecem
Ao comparar o início da carreira com o cenário atual, Sônia avalia que a participação das mulheres cresceu significativamente. Ela observa que hoje há mulheres em diferentes funções, inclusive na condução de máquinas agrícolas e na gestão de propriedades rurais.
Na visão da profissional, o avanço aconteceu gradualmente, à medida que as mulheres demonstraram preparo e conquistaram espaço no mercado de trabalho.
Já Cláudia apresenta uma percepção mais crítica sobre o reconhecimento feminino. Embora reconheça que seu trabalho a tornou uma referência na produção de batata-doce, afirma que essa condição foi conquistada depois de enfrentar perdas, provar seu conhecimento e lidar com situações em que sua palavra não era considerada.
As duas experiências mostram que não existe uma única forma de vivenciar a presença feminina no agronegócio. Enquanto uma destaca a construção de confiança ao longo da carreira, a outra chama a atenção para resistências que, em sua avaliação, continuam presentes nas relações profissionais.
Sônia considera que a preparação é fundamental para as mulheres que desejam entrar no setor. Ela recomenda investir nos estudos, acompanhar as transformações tecnológicas e buscar qualificação para aproveitar as oportunidades de uma área que considera importante para a economia regional e nacional.
Reconhecer quem faz parte do campo
O Dia Internacional da Mulher Rural é uma oportunidade para dar visibilidade às diferentes funções desempenhadas pelas mulheres no campo, desde o trabalho direto nas lavouras até a pesquisa, a educação, a gestão e a organização de iniciativas do setor.
As histórias de Cláudia e Sônia mostram trajetórias diferentes, mas ligadas à participação feminina no desenvolvimento do agronegócio. De um lado, a experiência de quem enfrentou dificuldades na produção e na busca por reconhecimento; de outro, a carreira construída por meio da pesquisa, da formação e do contato com os produtores.
Para Sônia, o papel da mulher no meio rural é fundamental, seja como profissional, seja ao lado de outras pessoas que constroem suas vidas no campo. Ela também destaca a importância da atividade rural para garantir a produção de alimentos.
“Sem o campo nós não somos nada. A humanidade não é nada. Nós precisamos que o campo alimente a cidade e as pessoas”, afirma.
Mais do que só lembrar de uma data de calendário, reconhecer a mulher rural significa considerar suas experiências, seu conhecimento e sua participação nas decisões que movimentam o agronegócio. Também significa olhar para os desafios relatados por essas profissionais e compreender que ampliar a presença feminina é parte de um processo que envolve oportunidades, respeito e valorização do trabalho.